RAG Jurídico: definição e arquitetura
O que é RAG jurídico
RAG é sigla de Retrieval-Augmented Generation, expressão traduzida como geração aumentada por recuperação. A técnica combina duas operações em sequência: um mecanismo de busca localiza, dentro de um acervo documental delimitado (leis, súmulas, acórdãos, doutrina), os trechos de texto pertinentes à pergunta formulada; um modelo de linguagem redige a resposta a partir dos trechos recuperados, e não apenas a partir do conhecimento fixado durante o treinamento do modelo. RAG jurídico aplica a mesma técnica a um acervo composto por fontes do direito e por decisões judiciais.
Um modelo de linguagem sem RAG responde a uma pergunta jurídica a partir de padrões estatísticos aprendidos em volume de texto, sem consulta ao texto vigente da norma, da súmula ou do acórdão mencionado na resposta. O modelo produz, sem base documental de apoio, número de processo, nome de relator e data de julgamento plausíveis e ao mesmo tempo fabricados, fenômeno chamado de alucinação. RAG jurídico reduz o risco de alucinação: a resposta cita somente trechos recuperados de um banco de documentos verificado, e o sistema aponta a origem de cada trecho usado.
RAG jurídico funciona como um assessor que, antes de opinar sobre um caso, procura o volume físico do Código Penal na estante do gabinete, localiza o Diário de Justiça com o acórdão publicado, lê as páginas pertinentes, e só depois de ler formula a resposta com a página aberta sobre a mesa. Um modelo de linguagem sem RAG funciona como um assessor que responde de memória, sem abrir volume algum: a resposta ou corresponde ao texto real, ou é produto de lembrança imprecisa.
Três diferenças entre RAG genérico e RAG jurídico
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Chunking hierárquico
A divisão do texto em trechos recuperáveis segue a estrutura normativa (capítulo, seção, artigo, parágrafo, inciso) e não um corte arbitrário por número de caracteres. Um corte arbitrário separaria o caput do art. 155 do Código Penal do § 4º-B, dispositivo que qualifica o furto mediante fraude eletrônica e foi inserido pela Lei 14.155, de 27 de maio de 2021. O corte arbitrário produz recuperação de trecho truncado e resposta incompleta.
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Desambiguação de entidades
O texto normativo repete os mesmos termos com sentidos distintos conforme o contexto: "art. 155" designa furto no Código Penal e designa hipótese de segredo de justiça no Código de Processo Civil. O mesmo entendimento jurisprudencial aparece sob rótulos distintos em fontes distintas: súmula, tema de repetitivo, acórdão paradigma. A desambiguação de entidades identifica quando dois textos tratam do mesmo referente.
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Correferência entre documentos
Um tema jurisprudencial é tratado em múltiplos acórdãos ao longo do tempo. Ligar as menções ao mesmo tema através de documentos distintos permite reconstruir a linha de precedentes, tarefa diferente do simples retorno de acórdãos isolados e desconectados entre si.
Arquitetura de RAG jurídico
Corpus normativo → anotação e chunking → desambiguação e correferência → base de conhecimento → busca semântica
Diagrama reconstruído a partir de esquema genérico de arquitetura de extração de conhecimento (corpus creation → annotation ↔ knowledge management), com terminologia adaptada a RAG jurídico.
Leitura do diagrama, sem jargão
O quadro superior, Formação do Corpus Normativo, reúne a coleta dos documentos-fonte (leis, súmulas, temas, acórdãos, doutrina) e a estatística do acervo formado: quantos documentos, de quais tribunais, sobre quais matérias, em qual período. A operação corresponde à montagem da biblioteca que o sistema vai consultar.
O quadro inferior esquerdo, Anotação e Chunking Hierárquico, recorta o texto bruto em unidades menores e etiqueta cada unidade. Três operações compõem o quadro: identificação de menções normativas (encontrar, no texto, a referência a um artigo de lei ou a uma súmula do tribunal); extração de relações jurídicas (registrar que um acórdão aplica um tema, ou que um artigo remete a outro); reconhecimento da estrutura sintática que organiza capítulo, seção, artigo, parágrafo e inciso em hierarquia. A operação corresponde a fichar cada página da biblioteca antes de guardar a página no lugar correto da estante.
O quadro inferior direito, Gestão da Base de Conhecimento Jurídico, organiza o resultado da anotação em três categorias: conceitos e institutos (insignificância, dolo eventual, bis in idem), entidades normativas (o dispositivo de lei, o tribunal, o relator) e eventos processuais (data de julgamento, data de publicação, revogação superveniente). A operação corresponde ao catálogo da biblioteca, índice que permite encontrar o assunto sem reler cada volume.
A seta que liga o quadro superior ao quadro inferior esquerdo, Chunking Direcionado, indica que a divisão do texto em trechos não segue regra fixa e igual para todo documento: a divisão observa a estrutura de cada tipo de fonte (lei, portaria e acórdão têm estruturas distintas), e o corpus formado no quadro superior direciona o modo de recorte.
A seta que liga o quadro superior ao quadro inferior direito, Busca Semântica, indica a etapa em que o texto recortado é convertido em vetor numérico (embedding, por exemplo pelo modelo multilingual-e5-large) e armazenado em banco vetorial (por exemplo ChromaDB), de modo que uma pergunta em linguagem natural encontre o trecho de sentido próximo, ainda que a pergunta não repita as mesmas palavras do texto da lei.
A seta dupla entre os dois quadros inferiores, Desambiguação de Entidades e Correferência entre Acórdãos, indica o ponto em que a arquitetura cruza a anotação (o que cada trecho diz) com o conhecimento acumulado (o que já se sabe sobre o assunto): o cruzamento resolve ambiguidade de referência e liga menções ao mesmo instituto ou ao mesmo precedente espalhadas por documentos diferentes. Sem a etapa de desambiguação, o sistema trataria cada citação normativa como item isolado, sem religar precedentes que tratam do mesmo tema.
A arquitetura funciona em ciclo, e não em linha reta: o conhecimento organizado no quadro inferior direito realimenta a formação do corpus no quadro superior, por meio da busca semântica: um conceito identificado na base direciona a busca por documentos adicionais sobre o mesmo instituto, e o corpus cresce orientado pelo conhecimento já extraído, e não apenas por coleta manual.
Em linguagem simples
RAG jurídico é um método que faz um sistema de inteligência artificial responder a pergunta sobre direito consultando documentos reais antes de escrever a resposta, em vez de responder só de memória. O sistema guarda leis, súmulas e decisões de tribunal organizadas por assunto. Quando alguém faz uma pergunta, o sistema procura, dentro do conjunto de documentos guardados, os trechos que tratam do mesmo assunto e escreve a resposta citando os trechos encontrados. O método evita que o sistema invente número de processo, nome de juiz ou data de julgamento inexistentes: a resposta fica presa ao texto guardado nos documentos, e não à produção livre do sistema.
Uma comparação simples: um mecanismo de busca comum devolve links da internet inteira; RAG jurídico devolve apenas trechos de uma biblioteca fechada, montada com fontes do direito escolhidas de antemão, e entrega os trechos encontrados ao sistema de inteligência artificial para a escrita da resposta.
Glossário
- RAG (Retrieval-Augmented Generation)
- Técnica que combina busca documental com geração de texto por modelo de linguagem. O sistema recebe, junto da pergunta, os trechos recuperados de um acervo, e produz a resposta a partir dos trechos recebidos.
- RAG jurídico
- Aplicação da técnica RAG a um corpus normativo, com chunking hierárquico, desambiguação de entidades e correferência entre documentos como etapas adicionais em relação a um RAG genérico.
- Corpus
- Conjunto de documentos que compõe o acervo consultado pelo sistema. Em RAG jurídico, o corpus reúne leis, súmulas, temas de repetitivo, acórdãos e doutrina.
- Corpus normativo
- Corpus formado por fontes do direito e por decisões judiciais, delimitado por critério de matéria, tribunal ou período.
- Chunking
- Divisão de um documento longo em trechos menores, unidade mínima de recuperação em um sistema RAG.
- Chunking hierárquico
- Chunking que segue a estrutura interna do documento (capítulo, seção, artigo, parágrafo, inciso), em vez de dividir o texto por número fixo de caracteres.
- Embedding
- Representação numérica de um trecho de texto em forma de vetor, produzida por modelo treinado para captar o sentido do trecho, e não apenas as palavras usadas literalmente.
- Busca semântica
- Busca que localiza documentos por proximidade de sentido entre o vetor da pergunta e o vetor de cada trecho armazenado, em vez de localizar por coincidência exata de palavras.
- Banco de dados vetorial
- Banco de dados especializado no armazenamento e na comparação de vetores de embedding. ChromaDB é exemplo de banco vetorial usado em sistemas RAG.
- Multilingual-e5-large
- Modelo de embedding multilíngue usado para converter texto, inclusive texto em português, em vetor semântico.
- Entidade normativa
- Elemento do texto normativo tratado como unidade de referência: um dispositivo de lei, um tribunal, um relator, uma data de julgamento.
- Desambiguação de entidades
- Operação que identifica quando duas menções textuais distintas se referem à mesma entidade, ou quando uma mesma expressão textual designa entidades distintas conforme o contexto (por exemplo, "art. 155" no Código Penal e no Código de Processo Civil).
- Correferência entre documentos (cross-document coreference)
- Ligação entre menções ao mesmo referente (um instituto, um precedente, um tema) feitas em documentos diferentes, de modo a tratar as menções como parte de uma só linha de sentido.
- Alucinação (em modelo de linguagem)
- Produção, pelo modelo, de conteúdo com aparência de fato (número de processo, citação, data) sem correspondência com fonte real. RAG jurídico reduz o risco de alucinação ao restringir a resposta aos trechos recuperados de um banco verificado.
- Súmula
- Enunciado que sintetiza entendimento consolidado de um tribunal sobre determinada questão jurídica, aprovado pelo procedimento interno de cada corte.
- Tema de repetitivo
- Questão jurídica selecionada por tribunal superior (STF ou STJ) para julgamento sob o rito dos recursos repetitivos, com tese vinculante para casos análogos.
- Acórdão paradigma
- Acórdão escolhido como referência de um entendimento, geralmente o julgado que fixou a tese aplicada a casos posteriores semelhantes.
- Precedente
- Decisão judicial anterior invocada como fundamento ou parâmetro de julgamento para caso posterior.
- Instituto jurídico
- Conceito ou figura consolidada no direito, com contorno doutrinário e jurisprudencial definido (insignificância, dolo eventual, bis in idem).
- Relator
- Magistrado responsável por elaborar o voto que orienta o julgamento de um processo em órgão colegiado.
- Dispositivo legal
- Unidade do texto normativo (artigo, parágrafo, inciso, alínea) que contém comando jurídico determinado.
Fontes verificadas nesta página (dispositivos legais citados no exemplo de chunking hierárquico):
Lei 14.155, de 27 de maio de 2021: inclusão dos §§ 4º-B e 4º-C no art. 155 do Código Penal (furto mediante fraude eletrônica): planalto.gov.br, emporiododireito.com.br
Art. 155 do Código de Processo Civil (Lei 13.105, de 16 de março de 2015): publicidade dos atos processuais e hipóteses de segredo de justiça: jusbrasil.com.br
